Dizem que no Brasil se discute arbitragem na imprensa nacional exageradamente. Mas sem querer ser corporativista, acredito que isso acontece porque os árbitros brasileiros têm uma necessidade de chamar um protagonismo desnecessário para si. O futebol precisa ser dos jogadores. O juiz deve ser um mediador, não um carrasco.
Essa maneira de apitar é tão enraizada na mente dos nossos juízes que isso acontece até quando não há equipes do país envolvidas na disputa. E logo no primeiro jogo da Libertadores da América 2026, a arbitragem brasileira conseguiu interferir no resultado, mesmo que de maneira sutil.
No Estádio Hernando Siles, na altitude de La Paz, o The Strongest venceu o Deportivo Táchira pelo placar de 2 a 1. No duelo de aurinegros, os donos da casa tiveram ampla superioridade. Foi um jogo divertido, movimentado, apesar da pouca inspiração de ambas as equipes. Na primeira etapa, 0 a 0, ainda que o The Strongest tenha balançado a rede, em lance bem anulado pelo mineiro Paulo César Zanovelli, com o auxílio do VAR, o também brasileiro Pablo Ramon Gonçalves Pinheiro.
No segundo tempo, o The Strongest abriu o placar já nos primeiros minutos em cobrança de pênalti de Arrascaita. Não demorou muito e Calzadilla empatou para o Táchira em lance de escanteio – curiosamente um ponto fraco da equipe na partida. E em outro pênalti, bem marcado, Ábrego confirmou a vitória dos anfitriões.
Foi neste gol que a arbitragem assumiu o protagonismo. O gol de Ábrego foi na segunda cobrança. Na primeira, o capitão Arrascaita foi para a marca da cal, assim como havia feito minutos antes. O pênalti convertido que abriu o placar já havia sido mal batido, mas a bola passou por baixo do goleiro Jesús Camargo. Na hora de colocar o The Strongest novamente na frente, Arrascaita mudou a batida, mas Camargo pulou firme e defendeu.
Com o chamado do VAR, Zanovelli mandou voltar a cobrança por invasão, o que de fato ocorreu. O problema é que na cobrança de Ábrego, há uma flagrante invasão de um atleta do The Strongest. Dessa vez, não houve chamado por parte do VAR. Um dos grandes pecados da arbitragem brasileira é a falta de consistência nas decisões. Se revisou e anulou na primeira cobrança, qual o motivo para não ter a mesma rigidez no lance convertido? E uma arbitragem que vinha sendo conduzida com excelência, teve papel decisivo no placar final;
Craque no banco
O treinador do Deportivo Táchira é o histórico meia uruguaio Alvaro Recoba. O ex-jogador está em sua segunda experiência como treinador. A primeira ocorreu em 2023, pelo Nacional de Montevidéu, clube que o revelou para o mundo do futebol.
Neste jogo, a estratégia era clara. Fechar a casinha e apostar em ocasionais contragolpes. Na altitude, ficou difícil ver como o Táchira realmente joga, além de parecer ser um time muito frágil defensivamente. Apesar disso, Recoba elogiou o sistema defensivo, que afirmou ter sido sólido durante o confronto. Apesar de prejudicado, o uruguaio não fez reclamações contundentes.
Destaque
Sem dúvidas, Jesús Camargo foi o nome do jogo. O goleiro venezuelano é meio provocador, gosta de uma graça e joga relativamente adiantado mesmo quando as linhas estão baixas. A defesa do pênalti iria coroar a atuação marcada por 6 defesas.
Lentidão
O The Strongest foi muito dominante em relação ao volume de jogo. Com quase 80% de posse de bola, chegou a finalizar 27 vezes, mas nem um terço desses na direção do gol.
Além disso, as transições e trocas de passe eram muito lentas, o que permitia a rápida recomposição da defesa adversária. O time boliviano também buscou jogar muito pelos lados, buscando os levantamentos. Quando a bola estava pelo meio, não havia associações, ainda que a equipe levasse perigo nos chutes de fora da área. E olha que existia muito espaço para a infiltração. As linhas defensivas do Táchira eram dispersas, deixando espaço tanto entrelinhas quanto no posicionamento entre os defensores. Mas o The Strongest não fez uso dessa alternativa.
No único lance que o fez, na primeira etapa, encontrou o gol. O camisa 10 Castro enfiou uma bola pelo meio da defesa para Estácio, que domina com liberdade e finaliza bem. Mas o Zanovelli anulou o gol por um toque de mão de Arrascaita no início da jogada.
O Táchira, por sua vez, também mostrou diversas fragilidades. O time teve duas chances claríssimas na primeira etapa em jogadas de contra-ataque, mas em ambos os lances faltou capricho dos atacantes do time venezuelano. Defensivamente, além dos espaços já citados, a bola aérea foi um ponto frágil. Na primeira etapa, o The Strongest venceu 10 dos 12 duelos aéreos.
Para o próximo jogo, a expectativa é que o cenário se inverta, com o The Strongest jogando com uma postura defensiva e com o Táchira dominando as ações ofensivas. Mas que dessa vez a arbitragem não tenha interferência direta no resultado final.